VESTIR: ELEGÂNCIA, VERGONHA OU DIGNIDADE

Inquestionável e claramente direcionada é a obra de misericórdia: “VESTIR OS NUS”. A nudez, aqui contemplada, é a nudez corporal que clama por abrigo e proteção em vista das ameaças do clima, mas também a necessidade de proteção de quem tem uma vida indigente e em necessidade, em vista de sua dignidade. Este assunto pode também nos convidar a contemplar de maneira mais ampla a realidade humana da vestimenta. Sabemos bem que o vestir se constitui um segmento que mais mobiliza a economia do mundo, mas que também mais favorece contradições.

Quando nos referimos ao vestir, presenciamos cenários onde se movimentam grandes investimentos econômicos que, tanto podem favorecer a vaidade humana, onde, em nome da elegância se cultiva uma auto-idolatria, onde em nome da moda do momento não se tem limite para expor o próprio corpo, onde se criam marcas sofisticadas para vestir animais e onde se presencia a nudez de multidões que nada tem para se vestir. Mas neste empenho do vestir também se investe de modo humano em dignidade, simplicidade e bom senso..

A questão da nudez e do vestir não é um assunto apenas do momento, mas uma realidade muito concreta e presente desde o Antigo Testamento. Em diferentes situações, a nudez aparece como dignidade, como vergonha, como necessidade e até, numa linguagem simbólica, para designar quem mesmo somos ou sinalizar a perda de nossa identidade.

O livro do Gênesis menciona a nudez em situações opostas. Antes do pecado, “o homem e sua mulher estavam nus, e não se envergonhavam” (Gn 2,25). Esta expressão indica a plena dignidade de ambos. Na intenção de Deus é fundamental a íntima complementariedade e a força misteriosa do amor. A vergonha da nudez entrou no mundo quando o ser humano rompeu a comunhão com Deus, querendo decidir por si os critérios do bem e do mal. “Então os olhos de ambos se abriram, e perceberam que estavam nus. Entrelaçaram folhas de figueira e fizeram tangas” (Gn 3, 7). Aqui a harmonia acaba e começam as ambiguidades da vida. Chama atenção uma cena de constrangimento provocada pela nudez de Noé. Tendo-se embriagado ficou nu dentro da tenda. Os filhos com todo o respeito encontram um modo para preservar a vergonha da nudez (Cf Gn 9,21).

Dentro do código de Santidade, exposto no livro do Levítico, o capítulo 18 registra as proibições nos relacionamentos íntimos que desnudam a dignidade das pessoas, especialmente entre os parentes e familiares. Aqui a nudez se torna abominável e um atentado a aliança de Deus com seu povo e do povo com seu Deus. O argumento que justifica as proibições vem do cuidado para não ceder a idolatria nos costumes imorais dos Egípcios e dos Cananeus.

A desobediência ao Deus da Aliança traz consequências de fome sede e nudez (Cf Dt 28, 48). Isaias também denuncia o engano dos cultos idolátricos e a nudez causada à raiz da dignidade humana. Enfim, toda a forma de nudez é um clamor à misericórdia de Deus e a misericórdia dos humanos.