VESTIR OS NUS

Os critérios para o julgamento, que vão marcando o nosso caminho, autenticando nossas escolhas e confirmando o juízo final, não são baseados em teorias e ideias bem elaboradas, mas em ações reais e concretas de misericórdia. Diante de Deus, não temos ao nosso lado advogados que nos acusam ou nos defendem, apenas vamos levando em nossas mãos as obras que realizamos com amor ou sem amor.

Enquanto pensava em escrever algo sobre esta terceira obra de misericórdia: “Vestir os nus”, sinceramente, fiquei imaginando o que deveria dizer para situar esta necessidade indicada por Jesus Cristo. Fui concluindo que Ele não tinha nenhum interesse de ficar viajando nas estrelas para oficializar os critérios de julgamento dos humanos. Jesus encarna-se, assume experimenta tudo o que fere e faz sofrer os humanos. Ali transita a misericórdia e suas obras.

O Cristianismo traz em sua essência, a encarnação do divino no humano, sempre impregnado de fraquezas e incômodas feridas. O Deus cristão não é um deus do Olimpo diante da realidade da vida. A vida é um mosaico de ações com todas as suas tonalidades. A nudez é uma das realidades que mais fere a dignidade humana e clama por misericórdia.

Jesus Cristo, ao dizer: “Estava nu e me vestistes” (Mt 25, 36), parte direto da realidade geradora de sofrimento, constrangimento e discriminação. O vestir, ou não vestir, não é apenas uma proteção nas variantes da temperatura, mas é também, causa de exclusão, indiferença e desprezo. Quem pouco se alimenta enfraquece e arrisca tornar-se anêmico. Quem não toma água se desidrata. Quem não tem com que se vestir facilmente se isola no risco de anular seu potencial humano de esperança, A gravidade da nudez, como ameaça à dignidade das pessoas, faz com que Jesus Cristo a situe como uma necessidade especial de misericórdia.

Deus se fez tão solidário, que veio assumir e viver em tudo a condição humana, menos no pecado. Tomou sobre si a trama global dos sofrimentos, torando-se faminto nos famintos, sedento nos sedentos e nu em toda a nudez dos humanos. Por este motivo, Ele mesmo declara estar presente em todos aqueles que necessitam de ajuda para cobrir a sua nudez.

Todas as vezes que vestimos um irmão necessitado, seja ele um morador de rua, um refugiado, um estrangeiro, um desabrigado pelas enchentes, um idoso, um doente, ou uma criança abandonada, estamos vestindo Jesus Cristo. Parece-nos difícil reconhecê-lo como tal. È mais fácil reconhecê-lo nos ostensórios dourados, nas grandes catedrais, ou nas cerimônias pomposas do que num maltrapilho que encontramos no caminho. É por isso que, tanto os que serão condenados, como os que serão salvos, no dia do juízo  perguntam ao Rei: “Quando foi que te vimos nu e te vestimos, ou não te vestimos?” Então Ele dirá: “Todas as vezes que fizestes isto, ou não fizestes isto, foi a mim que fizestes ou não fizestes!