Será que ainda vale a pena?

Há uma pergunta no ar de nossa cultura atual, que vem inquietando crianças, jovens, adultos e anciãos. Não se escapam, desta angústia, os camponeses, os habitantes das grandes cidade, os analfabetos e os que andam pelos corredores das universidades: "Será que ainda vale a pena"? Gramaticalmente, a pergunta está correta e clara. Existencialmente e cristamente, a pergunta pode ser perigosa.
Perguntar-se sobre o que ainda vale a pena, pode ser uma expressão de sabedoria e resultado oportuno de discernimento. Na verdade, há muitas coisas na vida e na história que não valem a pena. Não só se perde tempo em dar-lhe importância, como se tornam tremendamente prejudiciais quando nos ocupam e nos preocupam.
O perigo desta pergunta se dá, quando começa minar as decisões mais importantes da vida e até o próprio sentido da vida. Quando se começa indagar se vale a pena investir na família; quando jovens despertam animados para um estado de vida, começam andar e, em breve se deixam contagiar pela desmotivação e desistem; quando se faz um juramento de fidelidade por toda a vida e, com o passar dos dias, se deixa a rotina tomar conta; quando já não se investe mais em criatividade e garra e começam as acomodações na "medida baixa da vida"; quando se insiste em questionar se a vida tem sentido e se ainda vale a pena viver, então este tipo de pergunta, em lugar de nos fazer crescer, nos vai levando para a morte lenta.
Será que ainda vale a pena? Este tipo de pergunta, também perigosa, pode surgir quando passamos a nos medir pelos outros. Porque vemos tantos casais se separando, a tendência é jogar a culpa no casamento e questionar sua validade. Quando vemos religiosos e religiosas se complicando e abandonando seu compromisso, logo se questiona a validade da vida consagrada. Quando um Padre erra e deixa seu ministério, não se demora a questionar a validade do sacerdócio. Quando numa cidade aumenta a onda de suicídios, não é de estranhar que se coloquem dúvidas sobre o sentido da vida.
No coração da vida, fazer-se perguntas é sempre benéfico. Aliás, não podemos esquecer que a fé é sempre esta aventura movida a perguntas que nos impelem para frente, mesmo em terreno desconhecido. Porém, quando se vive minando tudo de dúvidas e não se arrisca mais; quando a dúvida passa a ser um método mórbido de viver, de agir e conviver; quando tudo o que é sólido vai se desmanchando no ar e não se investe mais em construir algo bom, verdadeiro e belo, então as eternas dúvidas nos jogam para um viver depressivo e perigoso.
Diante deste tema, tão sério para uma vida rica de sentido, sugiro que se leia a Parábola dos talentos de Mateus 25, 14-30. É possível que os três personagens tenham se questionado se "valia a pena" investir ou não. Dois arriscaram e tiveram sucesso. O que menos recebeu, se envolveu de medo, não arriscou e se deu mal. Conclusão: Se alguém não se arrisca por medo de errar, já errou por não arriscar!