Os Bons Sonhos Franciscanos

Quando avaliamos uma pessoa não interessa tanto saber de seus grandes projetos, sua eficiência, sua programação e suas soluções. Como diz Camus, importa "saber o que a pessoa respondeu às esperanças da humanidade". Não é em vão que o Papa Francisco, no início de seu pontificado repete tantas vezes e, com insistência: "Não roubemos as esperanças dos jovens!" Comprova-se que de algumas direções a esperança não desponta. Tantos avanços científicos e técnicos pareciam encantar definitivamente a história. Porém o coração humano se vê ferido e carente como nunca de aconchego, ternura e amor. Os olhares para o futuro gritam por novos horizontes mais promissores e humanizados.
Resgatar a capacidade de sonhar e fecundar a esperança em bons sonhos, é uma necessidade criadora da história e do verdadeiro progresso humano. Como ninguém, Francisco de Assis soube captar as angústias e as esperanças do seu tempo. A nada e a ninguém manifestava indiferença. Parece que, depois de oito séculos, outro Francisco chegou para alertar a humanidade do risco da globalização da indiferença, que tolhe os mais sagrados sonhos da humanidade.
Francisco de Assis, com todos os seus limites, procurou dar uma resposta aos sonhos do povo, especialmente dos "menores" e desclassificados. Os mesmos sonhos que ele acalentou e tão bem conseguiu socializar, com o contágio do seu carisma, pediu que seus seguidores os cultivassem e os comunicassem também.
O pensamento franciscano não vem de ideias bem elaboradas, mas de uma experiência vivida. O senso poético de Francisco brotava de uma vida poética e abria caminhos para o poema humano que é uma tarefa nunca encerrada, mas sempre aberta e relacionada com a natureza e a história. Nesta história, Francisco procura viver o hoje com a maior fidelidade possível, para poder colher um amanhã mais luminoso e um futuro mais humano.
A utopia franciscana não é uma aventurada viagem ilusória, mas um sonho que se desdobra em muitos sonhos possíveis, desde que haja empenho cotidiano para tecer novos ideais que mobilizam a criatividade. Também aqui, vale lembrar o insistente apelo do outro Francisco na jornada mundial de juventude do Rio de Janeiro, no que se refere ao cultivo das grandes utopias que reanimam as esperanças da humanidade.
Os bons sonhos franciscanos não são resultado de uma ingenuidade simplista, mas brotam da crença na capacidade criadora e imaginativa do ser humano. Prova disso é a multidão de homens e mulheres que cultivaram os bons sonhos franciscanos e marcaram a história, sempre no desejo de dar uma resposta à esperança das pessoas.
A utopia é possível, porque o franciscano coloca sua esperança em Deus, no seu humano e na natureza. Assim não corre o perigo de ser uma fuga do mundo real, nem uma fuga ao passado dourado, nem a um futuro imaginário. Os bons sonhos franciscanos se baseiam na convicção de que muito além das íntimas e profundas contradições, o ser humano é capaz do melhor.