Um novo modo de habitar

O que é diferente e verdadeiro, não vem para desprezar o que já existe, nem para se proclamar como única verdade, mas para enriquecer e ampliar horizontes, oferecendo uma nova alternativa. Assim aconteceu com São Francisco de Assis que nos apresenta um novo modo de habitar, de ser, de vincular-se e de viver. Sem diminuir a razão científica e matemática, ou a razão técnica instrumental, Francisco apresenta a razão vital, estética e religiosa. Nada se opõe, mas tudo se complementa. O franciscanismo não é ciência, mas experiência.


Francisco, vivendo no mundo criado, percebe que sua missão não é a ciência, mas a consciência de que todo o universo foi criado por Deus e que todos os seres, racionais e irracionais, constituem conosco a grande fraternidade cósmica. Toda a natureza é um reflexo da grande presença que é Deus, altíssimo, onipotente e bom Senhor. Esta presença atuante nos é garantida tanto nos seres grandiosos como o sol, a lua as estrelas, os oceanos, como nos seres mais humildes e ocultos, como os átomos, as violetas e os vermes dos caminhos.


Na pobreza de Francisco, sem dúvida, havia uma razão evangélica. A partir desta visão também cultivava uma razão ecológica que partia de seu ser e de seu encanto com o mundo criado. Quem possui, facilmente domina; e quem domina, facilmente destrói. Francisco amava a vida e tudo o que nela existe com infinita ternura. Por esta razão não admitia as relações de morte.


Com todo o seu modo de ser e conviver apresenta um novo modo de habitar no mundo, acreditando no diálogo universal como caminho de futuro. Neste desejo de convivência e de escuta, Francisco percebe que. em toda a criação está a voz calada e o silêncio sonoro de Deus Criador, Pai de todos os seres. E com todos os seres. Francisco pode cantar o grande hino à vida.


O Cântico das criaturas é expressão da vida de alguém que conseguiu fazer a difícil síntese da própria vida, apesar das contradições interiores; da sintonia com Deus, apesar de seus silêncios e de suas provas; da fraternidade com as pessoas, apesar das violências e agressividades cotidianas e da cordialidade com todos os seres da criação, apesar de suas resistências e obscuridades. Assim sendo, Francisco se torna mestre a nos ensinar um novo modo de habitar no mundo a co-habitar pacificamente com os outros.


Neste novo modo de habitar, Francisco não cultivava um espírito de timidez diante da natureza, como se estivesse habitada por espíritos perigosos que deveria exorcizar. Com os pés no chão, Francisco ia habitando o mundo com aquela liberdade, própria dos filhos de Deus. A partir de seu pensamento, de sua cordialidade e suas atitudes concretas do cotidiano, ofereceu à história e à humanidade uma nova alternativa que os tempos não relegam ao passado. A secreta nostalgia da humanidade, continua em busca de uma vida mais transparente e simples, onde a leveza supere o peso de um progresso desumano.