O SERVO SOFREDOR NOS VISITA

A misericórdia de Deus não é uma ideia sensacionalista, ou uma teoria que se manifesta com receitas mágicas e leis prontas. Já o Antigo Testamento previa a chegada de Deus no meio de nós, presente e envolta em sofrimento, fragilidade e enfermidade. É o Servo sofredor! Sua dor  é proporcional a seu amor e está ligada a sua inocência. Suas chagas e doenças são motivo para uma predileção de Deus. É o mistério desse sofrimento, aparentemente absurdo que toca a mais vil realidade humana para Deus libertar seu povo.

A figura do Servo sofredor, descrita pelo profeta Isaias, haveria de se manifestar em seu pleno significado e sua total realização em Jesus Cristo. Esta é a realidade confirmada, mais tarde, por Zacarias, Pai de João Batista no cântico evangélico do Benedictus: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque a seu povo visitou e libertou” (Lc 1, 1). Jesus Cristo, que assumiu nossas dores veio visitar a humanidade doente para trazer o remédio da misericórdia.

Em Jesus, a misericórdia do Pai torna-se uma realidade fascinante. Ele se apresenta com uma missão ligada especialmente aos doentes. Ele é o médico que não vem para curar os que tem saúde, mas sim os doentes (Cf Mt 9, 12-13). As doenças a que Cristo se refere são de toda a ordem, tanto as que fragilizam e põem em risco o corpo, quando as que atingem o espírito. Com Jesus, os enfermos recuperam a saúde, os possuídos pelo demônio são tirados de sua escuridão e escravidão. Toda a cura de Jesus visa integrar as pessoas enfermas e rejeitadas, numa sociedade nova, mais sadia e fraterna, assim como o Reino de Deus propõe.

A mentalidade semita afirmava que Deus está na origem da saúde e da enfermidade. Ele é Senhor da vida e da morte. Assim, uma vida sadia e vigorosa era vista como bênção e uma vida  enferma e mutilada, como maldição. Além da dor e do sofrimento humano, era imposta uma carga insuportável à multidão enferma que se sentia abandonada pelos humanos e castigada por Deus. Em nome de Deus excluíam-se os sofredores. Jesus chega para por um fim a esse tormento, como anúncio evidente da chegada do Reino.

O Servo Sofredor tornou-se em tudo solidário a nós, menos no pecado. Mas Ele se fez pecado para nos redimir e nos devolver a dignidade de filhos e a responsabilidade de irmãos. As ações misericordiosas de Jesus em relação aos doentes e sofredores eram tão surpreendentes que ninguém conseguia ficar indiferente perante tais prodígios. Enquanto os deserdados o procuravam e o seguiam, os legalistas o agrediam de todos os modos.

A dedicação preferencial de Jesus pelos que tinham a vida ameaçada faz parte de sua proclamação do reino de Deus. É a sua maneira de anunciar a todos esta grande notícia: Deus está chegando, e os mais desgraçados já podem provar sua compaixão e misericórdia. Este sinais favoráveis à vida e à dignidade humana, mesmo simples e humildes, estão anunciando um mundo novo: o mundo que Deus quer para todos.